A maternidade real: entre luzes e sombras
A maternidade é feita de luzes e sombras. Eu sempre prezo pela verdade sobre a realidade de ser mãe de dois filhos e equilibrar as tarefas de casa, o casamento e a vida profissional.
No entanto, hoje o post é diferente.
Após 7 anos de espera, planejamento e um desejo pulsante de aumentar a nossa família, vivemos um capítulo que eu nunca imaginei escrever: a perda gestacional.
O sonho de mais um filho
Minha primeira gestação chegou muito cedo, por volta dos 15 anos. Sim, fui mãe no auge da minha adolescência. Confesso que nem de longe podia imaginar o tamanho do amor que estava por descobrir.
Aos 16 anos, com os estudos interrompidos, veio o choque da vida adulta: casa, contas, trabalho. Eu e meu marido logo fomos morar juntos após a descoberta da gravidez acabamos sendo empurrados para uma extensa lista de obrigações.
Diante da missão de sermos pais, do compromisso e amor verdadeiro que tínhamos um pelo outro, o caminho se tornou mais leve. Prometemos que, embora tivéssemos o grande desejo de construir uma família maior, só teríamos outro filho quando alcançássemos certa estabilidade financeira.
Quando Bryan completou 5 anos, as coisas finalmente pareciam estar no lugar (rsrs). Já dava para pagar as contas e ainda sobrava um dinheirinho. Não era o momento perfeito, mas já podíamos preparar o terreno para receber mais um membro na família.
Eu havia concluído o ensino médio, e meu marido começava a trilhar sua jornada profissional. Então, interrompi o uso do anticoncepcional após 5 anos de uso de forma ininterrupta, esperando que no ano seguinte já estaria grávida.
O que era para ser uma espera de 1 ano virou 2, 3, 4 anos…Até que decidi que talvez não fosse a hora. Que o momento perfeito seria aos 30 anos. A idade do sucesso (rsrs).
Planejamento, mudanças e o início de um novo ciclo
2025 começou, e com ele iniciei novos hábitos: cortei o açúcar, eliminei doces e lanches da minha dieta. Eu já tinha uma vida ativa, mas intensifiquei meus treinos de corrida.
Perdi alguns quilinhos (já pensando nos que ganharia depois, rsrs). O objetivo era engravidar em dezembro de 2025.
No segundo semestre, comecei a pesquisar planos de saúde e maternidades. Eu sabia exatamente o que queria. E, para minha surpresa, a empresa onde trabalho informou que mudaria o plano de saúde, justamente para o que eu desejava contratar.
Tudo parecia alinhado.
Em janeiro de 2026, mais precisamente no dia 25, eu completaria 30 anos. Já iniciamos o ano com planos de adaptação da casa e já havia iniciado uma pequena poupança para o tão sonhado enxoval.
Não tive a oportunidade de fazer o enxoval do Bryan. Já o Levi chegou por meio da adoção, aos 7 meses, de uma linda história, mas que fica para outro post.
Um registro sem saber: o início de tudo
No meu aniversário, passamos um fim de semana em um hotel à beira da praia.
Ali, eu já estava grávida e não sabia.
Tirei uma foto para registrar a fé da chegada de um bebê em 2026.
Os dois tracinhos: a confirmação
Dias depois, mais precisamente em 30 de janeiro de 2026, com apenas um dia de atraso menstrual, resolvi fazer o teste.
Eu sabia que deveria esperar, mas a ansiedade falou mais alto.
E ali estavam: dois tracinhos.
Minha reação?
— Eu já sabia.
Respondi como se não fosse surpresa… mas, no fundo, era a realização de tudo que havíamos planejado.
Meu marido havia viajado naquele dia e só voltaria no domingo. Precisei guardar esse segredo.
No sábado, fiz o exame de sangue (BTHCG) e aproveitei para comprar um sapatinho branco e uma caixinha.
Quando ele chegou, preparei uma surpresa. Dei dicas, fiz suspense, disse que poderia trocar se não gostasse (rsrs).
Mas ele nem imaginava o que estava por vir.
Tava tão nervosa que essa foto foi a única que tirei, se der zoom, é possivel exergar o segundo tracinho.
Ficamos parados, sem acreditar. Chorei, ri, chorei de novo. 🥹
Nunca vou esquecer das palavras dele, agradecendo a Deus e pedindo sabedoria para criar mais um filho.
Os planos, os sonhos e a rotina
Começamos os preparativos. Em nove meses, teríamos um recém-nascido em casa.
Vieram também os questionamentos:
- Quando contar no trabalho?
- Como meus pais reagiriam?
- Quando enfim vou poder contar para o mundo?
Aos meus pais, contei logo em seguida. Já era de se esperar a reação da minha mãe, eu deveria ter filmado. rsrs Meu irmão ainda encenou que ela estivesse passando mal, oferecendo um grande copo d’água e dizendo que o coração dele não estava preparado para viver fortes emoções.
Acompanhando o ciclo menstrual, de acordo com a data da minha última menstruação, na semana seguinte eu completaria 4 semanas de gestação. Assim, contei a alguns familiares e amigos mais próximos. No trabalho e entre amigos, a notícia foi recebida com alegria. Todos sabiam o quanto esse bebê era esperado.
Dormia e acordava pensando nas compras do enxoval. O assunto, todos os dias no jantar, era sobre o bebê. Meu filho caçula já havia escolhido até o nome: “Julia”. Sim, na cabecinha dele, seria menina e não havia motivo para pensar em nome de menino.
Os primeiros sinais e a insegurança
Entre todas essas emoções, eu tentava sair um pouco do mundo cor-de-rosa, das pesquisas sobre berço, mamadeira e roupinhas de bebê. Afinal, eu precisava trabalhar, retomar meus treinos de corrida, dar conta da casa e dos estudos. Porém o corpo começou a regir …
Com o passar dos dias, vieram também as inseguranças naturais. Quem já passou por uma gestação sabe que, junto com a felicidade, existe o medo.
Cansaço extremo, dores de cabeça, cólicas constantes… algo parecia errado.
Além disso, havia uma tristeza sem motivo.
E aquilo não fazia sentido eu estava vivendo um sonho.
Cada sinal diferente gerava dúvidas, e o coração oscilava entre a felicidade e a preocupação. Ainda assim, eu tentava me manter confiante, acreditando que tudo daria certo.
O Diagnóstico: O que é o Aborto Retido?
Com 8 semanas de gestação, minha mãe havia conseguido um atendimento extra sem eu saber para realizar um exame de ultrassom. Eu, que estava no trabalho, corri para conseguir chegar a tempo na clínica. O que deveria ter sido um exame para trazer alívio e, enfim, ouvir o coraçãozinho do meu bebê, tornou-se um momento de silêncio ensurdecedor. O médico me mostrou, com detalhes, que o embrião tinha todas as características de um embrião de 6 semanas, e não 8, como eu havia informado. Foi especulado um aborto retido. Diferente do aborto espontâneo comum, no retido o corpo não expele o embrião imediatamente e, muitas vezes, não há sangramento, o que, para mim, tornou o choque emocional ainda maior.
Não podia acreditar diante do que estava vendo com meus próprios olhos. Como isso poderia estar acontecendo comigo? Sozinha no momento do exame, precisei me manter firme para que fosse possível compreender o relato do médico. Ele havia me explicado que, nas próximas semanas, o corpo poderia expelir o embrião e que eu poderia ter fortes sangramentos e colicas. Ou poderia optar pelo procedimento de aspiração manual intrauterina (AMIU), um procedimento ginecológico menos invasivo que a curetagem tradicional.
Saí do consultório tentando esconder as lágrimas. Ali mesmo já agendei o retorno para 15 dias, para confirmar o aborto retido e a saída dos restos placentários. Confusa e sem saber o que fazer, afinal, meu marido e meus pais estavam trabalhando, não tinha como ninguém me buscar. Como eles iam reagir a essa notícia no meio de suas atividades? Eu precisava voltar ao trabalho. Eu tinha saído no meio do expediente e não tinha possibilidade de ficar em casa sozinha. Precisava ocupar minha cabeça com qualquer outra atividade. Assim, decidi retornar e pensei: “Vou trabalhar e seguir normalmente com minha rotina”. Era o que eu planejava. Logo que cheguei, fui recebida pelo entusiasmo da minha colega de trabalho em saber como havia sido o exame. A minha resposta? Desabei em lágrimas. Mal conseguia explicar o motivo de tamanho desespero.
Equilibrando responsabilidades e emoções
Um dos maiores desafios de passar por uma perda gestacional quando já se tem filhos é que o mundo não para. Eu precisava continuar sendo mãe de dois meninos. Para mim, havia um ponto de esperança, então decidi que não contaria para as crianças até confirmar o que poderia ter acontecido. Enquanto isso, meu próprio mundo desabava. Além disso, precisava continuar trabalhando. Eu estava disposta a seguir com minha rotina normalmente, mas fui surpreendida com tamanha compreensão e empatia de todos no meu trabalho. Precisei entender que o luto exige tempo, algo que a produtividade nem sempre aceita. Era momento de desacelerar, desacelerar!
Quem me conhece sabe que essa palavra não existe no meu vocabulário. Não até compreender que eu precisava aceitar os últimos acontecimentos. E, com essa consciência, aceitei ser afastada por 10 dias, seguindo os conselhos da equipe de saúde ocupacional do meu trabalho.
Luto, dor e reconstrução
Naquela mesma semana, decidi procurar a maternidade. Cheguei com leve sangramento, que não evoluía há 6 dias, acompanhado de cólicas, dores de cabeça, tontura e enjoos. Naquele momento, enfim aceitei o diagnóstico. Eu precisava encarar o luto.
Meu marido me acompanhou, enquanto meus pais ficaram com as crianças. Lembro de ter orado, agradecendo pela oportunidade de ter gerado uma vida em meu ventre. Mesmo em meio à dor, o sentimento era de gratidão. Eu tinha a certeza de que havia um propósito em tudo aquilo. A espiritualidade estava comigo, e senti o mínimo de dor possível. Fui muito bem acolhida por toda a equipe do Hispital Santo Amaro
Foram cerca de cinco horas de espera até o efeito do medicamento para dilatação do colo do utero. Por volta das 21h, fui para o centro cirúrgico. Confesso que estava um pouco apreensiva.
O procedimento durou cerca de 1h. Ao acordar, ainda no centro cirúrgico, ouvi o choro de um bebê na sala ao lado. Uma mãe acabava de dar à luz. Eu estava no mesmo lugar onde vidas nascem, mas vivendo um cenário oposto. Saí dali chorando, pedindo forças a Deus para superar aquele momento e acreditando que, em breve, teria uma gestação saudável e um bebê em meus braços.
Por que compartilhar essa história?
Hoje, após doze dias desse cenário de profundo sofrimento, escrevo este relato com o desejo de ressignificar a minha história e tudo o que aprendi com essa dor.
Embora a ferida ainda esteja cicatrizando, compartilhar isso é uma forma de dizer a você, que está lendo e talvez passando pelo mesmo: você pode ressignificar essa dor.
Onde houve vida, também houve planos e sonhos. Eu me preparei com muito amor para a chegada de um bebê, mas, no meio do caminho, precisei refazer a rota. Aprendi que posso, sim, planejar e almejar, mas também é preciso ter resiliência e coragem para recomeçar quando as coisas não acontecem como imaginamos.
Não é fácil enxergar dessa forma quando se trata da perda de uma gestação tão esperada, mas é nisso que encontro forças para continuar, porque a vida segue.
E eu sei que, em breve, viverei esse sonho.
Permita-se sentir
Se você também está passando por isso, não minimize sua dor pelo tempo de gestação (pra mim, seis semanas são uma vida, e um plano interrompido). Busque apoio profissional se sentir que o fardo está pesado demais, mas lembre-se de que você precisa ser forte, ressignificar e dar um novo sentido à vida. Quando passamos por uma experiência tão dolorosa, ela nos transforma e nos fortalece, trazendo a consciência de que estamos evoluindo nesta existência. Afinal, é vivendo a vida que tiramos lições das experiências que ela nos traz
Conclusão
A jornada da maternidade é imprevisível. Hoje, guardo esse anjinho no coração e sigo cuidando dos que estão aqui comigo, com a certeza de que a vulnerabilidade também nos fortalece.
Você já passou por algo semelhante? Como foi o seu processo de cura? Vamos conversar nos comentários.










